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Remakes, shots-by-shots e as suas ironias

por Ricardo Salavisa

Em primeiro lugar, este artigo não pretende concretamente chegar a uma conclusão específica mas sim dar apenas alguns pareceres e reflexões sobre o tema sugerido. Com isso pode-se dizer que não vai ser tudo preto no branco e que algumas coisas podem contradizer-se, daí a palavra “ironia” sugerida no título.

Há uns tempos atrás surgiu em conversa mais uma vez este tema da tendência atual em fazer-se remakes em Hollywood e também, é claro, pegando como exemplo principal os estúdios da Disney nestes últimos cinco anos.

De facto, e pensando no ano de 2019 em termos de lançamentos da Disney, que foram ao todo cinco live-actions, e em especial ao ter visto a nova versão de “O Rei Leão“, pus-me a pensar: será que realmente quero ver novas versões quadro-a-quadro iguais àquilo que conheço? Ver de novo a mesma coisa, mas uns anos depois num novo formato?

Claro que isto teria sido algo a questionar logo de início quando começaram a lançá-los apartir de 2010 (não esquecendo, claro, a adaptação de “101 Dálmatas” de 1996, apesar de terem sido outros tempos), mas à medida que uma pessoa foi vendo as novas versões que iam saindo, a palavra “saturação” começou a surgir logo passado algum tempo.


Mas aqui entra o outro lado da questão: se por um lado queremos ou, melhor dizendo, “preferimos” ver representações iguais às versões animadas que conhecemos desde sempre, por outro sentimos a saturação de ver algo igual. Mas quando uma nova versão tenta fazer algo diferente do original, o resultado acaba por ser inferior.

Em que é que ficamos? Bem, diria que não há uma conclusão objetiva, mas sim tratar-se de partir do gosto/opinião de cada um e aquilo que o filme representa para si – sim, principalmente trata-se de “caso a caso”. Falo um pouco contra a minha pessoa aliás, se por exemplo “O Rei Leão” de 2019 fez-me sentir ver um filme igual tanto nas cenas como nos diálogos mostrados (apesar de uma coisa nova ou outra inserida) minuto a minuto. O “Aladdin“, por outro lado, fez-me comichão as partes alteradas ou cortadas da versão original, que se trata duma das minhas animações favoritas da Disney. Cenas como todo o terceiro ato do filme ser inferior à sua versão original, cortarem o Jafar de se transformar numa serpente, o que meio que simboliza até mesmo a personalidade do vilão, e em troca usam o Iago como um pássaro gigante atrás de Aladdin… Como diria o Deadpool, “That’s just lazy writing”.

Aqui entra o lado da ironia, mas ao mesmo tempo é tudo uma base de experiência pessoal. Se por um lado esse aspeto eu desgostei em “Aladdin”, por outro, “O Livro da Selva“de 2016 acabou por funcionar o equilíbrio da adaptação da história da versão de 1967 com uma expansão dela em certos pontos e modificando outros. Então porque é que gostei de um e do outro não? É irónico? Sim, mas são casos diferentes pois trata-se da experiência de cada um.

Remakes têm muito que se lhe diga e, pessoalmente, não é algo que ache totalmente negativo mas é preciso pensar em que tipo de filmes/situações é preciso fazer ou não.

A maioria dos remakes ou “novas visões” surgem com o intuito de voltar a pegar numa história que das duas uma: por pura ganância e sem razão nenhuma querem tentar repetir o sucesso (como é o caso recentemente do anúncio do remake de “Sozinho em Casa“), ou permitir dar uma versão mais atualizada de um produto que estava há muito tempo adormecido.

Depende da intenção do estúdio e dos realizadores, e é claro que quando falo em “versão mais atualizada” não falo de um período de espaço de 10 anos, mas sim mais que isso.

Exemplos de IT e Chucky – O Boneco Diabólico

Original vs Remake

A versão cinematográfica de “IT“, dividida em duas partes, é um exemplo positivo. Aliás, a primeira adaptação do livro de Stephen King surgiu em 1990 através de um telefilme mas que, com o tempo, foi sendo esquecido, só ficando a realçar o papel icónico de Tim Curry como Pennywise. A nova versão permitiu voltar a pegar nessa obra e até mesmo desenvolver de uma forma mais fiel o conteúdo e,de certa maneira, “acordá-la” de volta à media. Isto não quer dizer obviamente que acho uma pior que a outra, até porque gosto de ambas as versões.

Por outro lado, deparei-me com uma agradável surpresa o ano passado (já que estamos a falar de remakes) com a nova versão de “Chucky – O Boneco Diabólico, e aí volta a questão da ironia.
“Chucky – O Boneco Diabólico” faz parte daquele conjunto de filmes/sagas dos anos 80 e posterior, com que cresci com o passar dos anos e que sempre marcaram fosse pela mais mínima razão. Quem nunca em conversa com amigos se virou e dizia “Quando era pequeno tinha medo de sonhar com o Chucky atrás do sofá com uma faca”? Ninguém? Ok.

Muito do sucesso do Chucky deve-se, claro, ao ator que lhe deu a voz e personalidade carismática: Brad Dourif (conhecido também pelo seu papel de Gríma Wormtongue na trilogia de “O Senhor dos Anéis“).

Quando um remake de Chucky foi anunciado, ainda com a saga principal iniciada em 1988 ativa e com uma série prometida, é um daqueles casos que realmente nos questionamos “Porquê? O original é tão conhecido e icónico ainda.” Tentei manter a mente aberta quanto à nova versão, mas claro sempre com um pé atrás, mesmo com o anúncio de Mark Hamill a dar nova voz ao boneco.

É um caso bicudo quando estamos tão habituados ou ligados a uma versão de algo que imediatamente não queremos aceitar que vai existir uma versão nova, e não há nenhum problema em pensarmos isso. O problema está na maneira como o demonstrarmos aos outros sem faltar ao respeito a opiniões contrárias. Podemos sempre ter opiniões contrárias, e isso não é mau. Muito pelo contrário, é o que torna também as coisas mais interessantes para serem motivos de debate.

Dito isso, tive oportunidade de ver o remake numa sessão a convite da organização do Festival Motelx, que exibiu o filme, e acabei por ter uma surpresa agradável.

Isto é, apesar de toda a questão do vodu e de ser uma alma transferida no boneco ser muito mais interessante e dar mais personalidade a Chucky no original, a nova versão não se resumiu a copiar e acabou por fazer algo igual e diferente ao mesmo tempo. Temos um boneco atrás do seu dono? Temos, mas souberam aproveitar os avanços tecnológicos atuais e dar umas ideias novas adequadas aos tempos atuais em que vivemos no meio de tanta tecnologia e Inteligência Artificial. Acrescentando a isso, um tom de comédia negra com um pouco de slash à mistura.

Se havia necessidade de se fazer um remake? Claro que não. Mas em vez de ser um remake igual ao seu antecessor, decidiu ir para alguns caminhos diferentes como que se fosse uma versão mais atualizada de Chucky.

Isto não significa que esteja de acordo ou não com novas versões, são alguns exemplos de variadíssimos casos específicos que podem fazer, ou não, sentido serem feitos. Acaba por ficar na opinião de cada um. Mas uma coisa é certa, é sempre preferível serem feitas novas histórias que propriamente remakes, algo que Hollywood tem de começar a pensar duas vezes.

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